88. Delicadeza e violência 2
02/06/2020
Retomando as razões de Mia Couto:
"Quarta razão — A impossibilidade de um retrato de nação
Moçambique e Brasil são países que encerram dentro de si contrastes profundos. Não se trata apenas de distanciamento de níveis de riqueza, mas de culturas, de universos, de discursos tão diversos que não parecem caber numa mesma identidade nacional. A escrita de João Guimarães Rosa é uma espécie de viagem em cima dessa linha de costura. O que ele busca na escrita: um retrato do Brasil? Não. O que ele oferece é um modo de inventar o Brasil.
Com Mário de Andrade, João Guimarães Rosa é um dos fundadores da identidade territorial e cultural da nação brasileira. Ao contrariar uma certa ideia de modernização, Rosa acabou criando os pilares de uma outra modernidade estilística no Brasil. Ele fez isso numa altura em que a literatura brasileira estava prisioneira de modelos provincianos, demasiado próxima do padrão de literatura portuguesa, espanhola e francesa. De uma similar prisão ansiávamos, também nós, por nos libertar.
O que Rosa instaura é o narrador como mediador de mundos. Riobaldo é uma espécie de contrabandista entre a cultura urbana e letrada e a cultura sertaneja e oral. Esse é o desafio que enfrenta não apenas o Brasil, mas também Moçambique. Mais que um ponto de charneira necessita-se hoje de um médium, alguém que usa poderes que não provêm da ciência nem da técnica para colocar esses universos em conexão. Necessita-se da ligação com aquilo que João Guimarães Rosa chama de “os do lado de lá”. Esse lado está dentro de cada um de nós. Esse lado de lá é, numa palavra, a oralidade.
Quinta razão — A necessidade de contrariar os excessos do realismo
Vivíamos em Moçambique e em Angola a aplicação esforçada do modelo estético e literário do realismo socialista. Nós mesmos fomos autores militantes, a nossa alma tomou partido e tudo isso nos parecia historicamente necessário. Mas nós entendíamos que havia uma outra lógica que nos escapava e que a literatura tinha razões que escapavam à razão política.
A leitura de Rosa sugeria que era preciso sair para fora da razão para se poder olhar por dentro a alma dos brasileiros. Como se para tocar a realidade fosse necessário uma certa alucinação, uma certa loucura capaz de resgatar o invisível. A escrita não é um veículo para se chegar a uma essência, a uma verdade. A escrita é a viagem interminável. A escrita é a descoberta de outras dimensões, o desvendar de mistérios que estão para além das aparências. É Rosa quem escreve:
“Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo”.
Há aqui um posicionamento político nunca enunciado mas inscrito no tratamento da linguagem. É na recriação da linguagem que ele sugere uma utopia, uma ideia de futuro que está para além daquilo que ele denuncia como uma tentativa de “miséria melhorada”. Esta linguagem mediada entre classes cultas e os sertanejos quase não existia no Brasil. Através de uma linguagem reinventada com a participação dos componentes culturais africanos também nós em Angola e Moçambique procurávamos uma arte em que os excluídos pudessem participar da invenção da sua História.
Sexta razão — A urgência de um português culturalmente remodelado
Nós vivemos em Angola e Moçambique uma certa saturação de um discurso literário funcional. Mais que funcional: funcionário.
Numa entrevista com Günter Lorenz, Rosa revoltava-se contra a escrita panfletária e utilitarista da literatura, mesmo que isso fosse feito em nome da boa intenção de mudar o mundo. “Somente renovando a língua é que se pode renovar o mundo. O que chamamos hoje linguagem corrente é um monstro morto. A língua serve para expressar ideias, mas a linguagem corrente expressa apenas clichés e não ideias; por isso está morta, e o que está morto não pode engendrar ideias.”
Para João Guimarães Rosa, a língua necessitava “fugir da esclerose dos lugares- comuns, escapar à viscosidade, à sonolência”. Não era uma simples questão estética mas era, para ele, o próprio sentido da escrita. Explorar as potencialidades do idioma, desafiando os processos convencionais da narração, deixando que a escrita fosse penetrada pelo mítico e pela oralidade.
“Guimarães Rosa inventou uma outra língua portuguesa. A sua obra é a criação de outra linguagem. O personagem mais importante de Rosa é a própria linguagem.” (Manoel de Barros).
Guimarães Rosa, como Manoel de Barros, trabalha fora do senso-comum (ele cria um senso-incomum), elabora no mistério denso das coisas simples, entrega- nos a transcendência da coisa banal.
Sétima razão — A afirmação da oralidade e do pensamento mágico
O autor insurge-se contra a hegemonia da lógica racionalista como modo único e exclusivo de nos apropriarmos do real. A realidade é tão múltipla e dinâmica que pede o concurso de inúmeras visões. Em resposta ao to be or not to be de Hamlet o brasileiro avança outra postura: “Tudo é e não é”. O que ele sugere é a aceitação da possibilidade de todas as possibilidades: o desabrochar das muitas pétalas, cada uma sendo o todo da flor.” (Mia Couto)
Como observamos, são razões bem elaboradas pelo escritor africano, que já mencionamos como maravilhoso. Mia Couto fala de algumas razões com bastante credibilidade entre nós e com muita freqüência. São nossas eternas culpas que povoam o mundo interno e objetivam diminuir sempre as responsabilidades. Parece-me bastante óbvio que são razões, pensamentos bem reflexivos, mas são também a estrutura íntima de tantas e até todas as desrazões possíveis.
Cada indivíduo, quando submetido à civilização, que tem suas regras e suas representações, projeta fora de si suas razões e suas desrazões.
Quando se entendem algumas razões civilizatórias como autênticas, genuínas, verdadeiras, tradicionais e históricas, devemos refletir profundamente. Podem ser termos que preconizam e até defendem o certo em um mundo tão incerto como o nosso. O nazismo e outros estados totalitários diziam saber a verdade própria das políticas idealizatórias. Tudo, felizmente, pode merecer crítica ao nível sociológico. Nada pode ser absoluto e responsável para uma verdade sempre relativa e discutível. Aliás, é o que costuma acontecer na maioria dos sistemas democráticos que ainda existem e talvez, tomara, sobrevivam.
O mundo é feito de várias verdades e a democracia parece corresponder a isso, mesmo sendo discutível em seu aspecto representativo. A globalização deve nos tornar semelhantes, sem a farsa da verdade na igualdade social, e se estruturar nas várias possibilidades relacionadas ao verdadeiro, ou seja, ao verdadeiro e não à verdade, que sempre, ao menos em parte, prevalecerá desconhecida.
Como estamos narrando, os critérios de verdade são múltiplos e a origem deles costuma ser variada. É claro que isso tem de ser estudado em cada situação e no jogo político, que é sumamente importante. O poder pode ser bastante conveniente na construção política e deve, assim, ter suas “verdades" nem sempre racionais, quase sempre falsas e, às vezes, até enigmáticas. Pode estar relacionado com uma obediência absoluta a certo sistema político que produz identidades perigosas para o mundo civilizado, inclusive que matam, que destroem aquilo que seria muita mais próximo da delicadeza e talvez de alguma certeza.
Em situações de extrema violência, a censura pode resolver e adequar as circunstâncias tão necessárias para o poder autoritário e despótico, no qual onde o setor público é bem mesclado ao poder privado dos mandatários envolvidos.
Nas próximas duas semanas os textos serão sobre psicossomática.
PACIÊNCIA
Quero…
Não desespero,
mas quero.
Chega de “lero-lero”.
Não aceito seu clero.
Volto amanhã, mais cedo.
Só coragem, sem medo.
Quero sem medo.
Nada há de severo.
Quero sem desespero.
Espero, não é legal.
Sei e tristemente espero.
Selvagem não cedo, só espero.
Selvagem concedo, ainda espero.
O que?
Poesia de minha autoria.
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