87. Delicadeza e violência 1
26/05/202
Coloquei a delicadeza antes da violência por muito desejo de que ela vença, mesmo sabendo que a violência e o respeito existem dentro de cada um de nós. Delicadeza, é claro, implica o respeito em considerar a vida anímica e biológica do outro, até porque também somos o outro. Ou seja, não só nos identificamos com o outro; também, em essência, somos o outro. Ele é parte de cada um de nós, assim como a terrível violência desencadeia os tantos males da civilização. Não significa que a própria sociedade, muitas vezes, não seja injusta, despótica e conflituosa. A sociedade também pode fazer muito mal e ser bem prejudicial para cada indivíduo.
Tudo isso nós já sabemos, eu e você, querido leitor. Apelo para a reflexão frequentemente e, por isso, insisto tanto no que já narrei.
Antes, motivos religiosos, políticos e éticos obrigavam o ser humano a ter mais cuidado, olhar os próprios desejos e fazer tudo o possível para evitar os problemas existentes. Hoje, a necessidade de vida e esperança nos obriga a fazer o isolamento social e tantos outros sacrifícios. A Covid-19 deve ser evitada, pois não sabemos das consequências que emergirão na sociedade. Isso nos dilacera, retira de cada um de nós alguns pedaços valiosos de liberdade. É o que temos. Inventamos escolhas novas para minimizar a pandemia, e isso pode ajudar muito. Criar outras histórias da vida, também. Sabemos que isso é difícil, porém parece não haver outra saída. Nossa alma deve buscar soluções na ciência, e a fé que permaneça nos que creem.
Em todas as situações possíveis, a solidariedade e o bom senso devem combater a forma silenciosa, oculta, praticamente invisível, que costuma, com bastante mérito, encobrir a violência e mais ainda a violência arbitrária que é vista em uma pandemia. Nosso progresso científico deve ser acionado com força, com vontade, com delicadeza.
É claro que muitos indivíduos não podem frequentar lugares como teatros e exposições artísticas, não podem inclusive ler livros, frequentar lugares próprios da cultura. É claro, também, que alguns indivíduos poderiam muito mais em nome da cultura. Entretanto, parece não haver interesse algum nessas coisas “inúteis”. Os responsáveis parecem ter na alma alguma mágoa evidente, crônica e negativa relacionada com o conhecimento do homem.
A seguir, cito algumas frases do livro do maravilhoso Mia Couto, para que o leitor reflita bastante os enunciados que existem desde o início da civilização. Reflexão, consideração, levar a sério, tudo é muito importante e tudo deve ser bem valorizado.
"Primeira razão — A construção de um lugar fantástico
A palavra “sertão” é curiosa. A sonoridade sugere o verbo “ser” numa dimensão empolada. Ser tão, existir tanto. Os portugueses levaram a palavra para África e tentaram nomear assim a paisagem da savana. Não resultou. A palavra não ganhou raiz. Apenas nos escritos coloniais antigos se pode encontrar o termo “sertão”. Quase ninguém hoje, em Moçambique e Angola, reconhece o seu significado.
João Guimarães Rosa criou este lugar fantástico, e fez dele uma espécie de lugar de todos os lugares. O sertão e as veredas de que ele fala não são da ordem da geografia. O sertão é um mundo construído na linguagem. “O sertão”, diz ele, “está dentro de nós.” Rosa não escreve sobre o sertão. Ele escreve como se ele fosse o sertão.
Em Moçambique nós vivíamos e vivemos ainda o momento épico de criar um espaço que seja nosso, não por tomada de posse, mas porque nele podemos encenar a ficção de nós mesmos, enquanto criaturas portadoras de História e fazedoras de futuro. Era isso a independência nacional, era isso a utopia de um mundo sonhado.
Segunda razão — A instauração de um outro tempo
Já vimos que o sertão é o não-território. Veremos que o seu tempo não é o vivido mas o sonhado. O narrador do Grande sertão: veredas diz: “Estas coisas de que me lembro se passaram tempos depois”. E ele poderia dizer de outro modo: as coisas importantes passam sempre para além do tempo.
O que Rosa perseguiu na escrita foi (estou citando) “essa coisa movente, impossível, perturbante, rebelde a qualquer lógica, a que chamamos de ‘realidade’, e que é a gente mesmo, o mundo, a vida”. A transgressão poética é o único modo de escaparmos à ditadura da realidade. Sabendo que a realidade é uma espécie de recinto prisional fechado com a chave da razão e a porta do bom-senso.
Terceira razão — A construção do Estado centralizador e a recusa da homogeneidade
É importante situar em que contexto histórico João Guimarães Rosa escreve. Grande parte da obra rosiana é escrita quando os brasileiros fazem nascer do “nada” uma capital no interior desse sertão (Brasília acabava de ser construída). O que estava ocorrendo era a consumação do controle centralizado de uma realidade múltipla e fugidia.
Na realidade, o sertão de Rosa é erguido em mito para contrariar uma certa ideia uniformizante e modernizante de um Brasil em ascensão. O lugar distante e marginal, que é o planalto interior do Brasil, converte-se num labirinto artificialmente desordenado e desordenador.
Também Moçambique vive a lógica de um Estado centralizador, de processos de uniformização linguística e cultural. A negação dessa globalização doméstica é, muitas vezes, feita por via da sacralização daquilo que se chama tradição. África tradicional, África profunda e outras entidades folclorizadas surgem como espaço privilegiado da tradição, lugar congelado no tempo, uma espécie de nação que só vive estando morta.
O que a escrita de Rosa sugeria era uma espécie de inversão deste processo de recusa. Tratava-se não de erguer uma nação mistificada, mas da construção do mito como nação." (Mia Couto em "E se Obama fosse africano?")
Na próxima semana encerrarei esse tema com as outras 4 razões de Mia couto.
UM POEMA
Palavra pesada.
Leve, pluma ou folha.
Associação: poema
fonemas sem direção.
Fonemas voando sem direção.
Silenciar, vale a pena?
Quietude a cena?
Convento, fechado ao vento.
Atento, tento, tento, não consigo.
Persigo o acaso, chão raso
Ocaso livre, desilusão.
Vocábulo em movimento.
Entre o chão e firmamento.
Clarão de lua, nua, minha, nossa, sua,
sem sofrimento.
Sentimento leve.
Atento, há tempo, tento.
Mais um poema no muro do convento.
Sem freira e mesmo sem freira
ainda tento, como tento.
Poema de minha autoria.
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