86. As psiconeuroses 3
19/05/2020
Os atos obsessivos, ou seja, as compulsões, tentam evitar acontecimentos externos desagradáveis como a morte de um ente querido e funcionam como complexos rituais a serem mais profundamente conhecidos.
Existe quase sempre nesses enfermos, uma dissociação entre as ideias e os afetos. As pulsões que, como sabemos, se dividem em representações ideativas e afetivas, estão separadas. Assim, os neuróticos obsessivo-compulsivos mostram-se inativos e com muitas ideias, muitas cadeias associativas e, portanto, alguma riqueza intelectual pode ser observada.
O neurótico obsessivo-compulsivo obedece à civilização e só internamente ou nos rituais expressivos pode apresentar sintomas mais visíveis. Sintomas mais explícitos. Percebe-se a natureza absurda de seus atos, de suas ideias, porém, se defende ao máximo para não perceberem suas ilogicidades. Ou seja, o neurótico obsessivo-compulsivo defende de modo muito brilhante de todos os seus próprios comportamentos, que muitas vezes ele reconhece como ilógicos e muito distintos da razão dos homens mais adaptados à civilização.
Há pacientes que vão à missa, e lá surgem pensamentos negativos sobre Deus, frases ruins, ataques pesados. Tudo contra tudo o que acreditam. Já atendi pessoas que, ao estarem diante do Muro das Lamentações, tiveram pensamentos hostis associados com palavrões de todos os matizes. Assim, diante de tanta ilogicidade, podem procurar ajuda, o que não costuma ser observado.
Freud chamou a religião como a neurose obsessivo-compulsiva comum da humanidade, pois esta humanidade sempre emite regras de conduta poderosas, significando temor e obediência a Deus; a um Deus, evidentemente, pleno de contradições baseadas em ideias boas e nas ideias ruins. A civilização e a cultura obrigam-nos a reconhecer em Deus um grande pai, um herói, um ser com o poder sobre nossa vida e nossa morte. Já que o nosso próprio pai é bem incapaz dessas coisas, esse pai idealizado pode tudo, mas em algumas pessoas encontra-se ameaçado e é desobedecido, apesar dos medos emergentes e dos rituais de arrependimento.
A neurose obsessivo-compulsiva também já foi chamada de neurose da dúvida, pois se torna muito difícil para o inconsciente decidir qualquer coisa sem o lado oposto coexistir. Daí as inúmeras situações de ambivalência, de querer e simultaneamente não querer. Decisões sempre muito complexas, levando em conta a insistência da cadeia significante que procura expressar-se, mesmo diante de tantas defesas psíquicas.
Como o leitor pode entender, em todas as psiconeuroses o conflito psíquico é evidente e irá apresentar-se por diversos caminhos, na maioria das vezes caminhos ilógicos, irracionais e até estranhos.
A grande maioria de nossos pacientes, é oportuno termos em mente, são acometidos pelas vicissitudes das psiconeuroses. A prática psicanalítica é fundamental nessa situação de conflitos bem articulados com o saber metapsicológico.
Para finalizar, devemos levar em conta que existem as somatizações de qualquer parte do corpo, as chamadas organoneuroses, psicastenia e neurastenia, e nesse amplo contexto narramos aspectos importantes das psiconeuroses: histerias dissociava e conversiva, neuroses fóbicas e neuroses obsessivo-compulsivas. Os fatores inconscientes são típicos e bem importantes para a grande maioria de nossos pacientes.
NA CIDADE
Se você constrói na cidade,
uma vida ou verdade,
sem trazer felicidade,
só muita imitação,
em contexto covarde,
escapou ileso da mediocridade.
Cada falta de reflexão,
transgride a imitação.
Cada ação mobilizada,
transforma tanta desrazão
em quase nada.
Com dificuldade
se constrói na cidade.
fazendo tanto alarde
onde arde desilusão.
Cidade vazia,
caminha ironia,
arde desilusão.
(poema de minha autoria)
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