51. Epistemologia ou teoria do conhecimento 2
24/06/2019
Sabe-se que a heurística associada com a história auxilia na elaboração de textos científicos. Entretanto, estes não dizem verdadeiramente nada que represente a sabedoria. A heurística ajuda, é claro, a criar os paradigmas necessários para o saber científico, que nunca poderá ter dono. Nem o cientista é o dono da ciência. Quanto à religião, ela diz e escreve coisas que os padres e religiosos podem explicar. Em geral, encontram-se associadas com o poder. O estado laico verdadeiramente é uma utopia que deve sempre ser construída no âmbito da realidade. Mas, é obvio que diz respeito a uma certa realidade simbólica e plena de tantos mistérios.
Cada religião busca refazer ou manter certa relação com a transcendência, com fatores que convergem para outra espécie de lógica, bem diferente da lógica dos indivíduos. A religião implica credibilidade e isso jamais seria científico. Crenças e dogmas vinculados ao mistério não podem construir nenhum aspecto da realidade. O saber não necessita nem de crença ou fé e nem de dogmas, aliais, bastante discutíveis. A fé não precisa de prova e, claro, não pode ser considera científica. Em todas as religiões o “outro mundo” é transcendente e pleno de textos obscuros. Este “outro mundo” não diz quase nada da realidade que existe no homem, na natureza e entre os homens.
Existem duas formas em geral para se pensar e entender o mundo: uma forma rápida, instintiva e uma lenta, reflexiva. Parece evidente que essas duas formas podem ser boas ou não. Ao buscar conhecimento com os instintos aguçados, podemos agir mais e mais erroneamente. Se utilizarmos o poder reflexivo podemos agir mais lentamente ou deixamos de agir. Nesses contextos, é possível que o indivíduo perca as oportunidades por ficar eternamente só refletindo. Como o leitor está observando, deve-se proceder sempre com poder de rapidez aliado ao poder reflexivo. A construção de alguma verdade pressupõe sempre instinto e razão. Ação e elaboração do ocorrido. Construir e desconstruir “verdades” eternas. Pensar na lição dos acontecimentos e, também, no sentido contrário a eles.
Sempre o ser humano compara o presente com o já vivido. Assim constrói seu conhecimento científico e agora não abre mão da nova teoria. Passa a ser “verdade” forte que será preservada a todo custo. Todo desconhecido ou fato novo será “testado” pela teoria absolutamente já estabelecida e geradora do conhecimento da realidade externa e interna de cada indivíduo. É claro que isso só pode ser falso e dificilmente científico. Aqueles que acreditam na religião dizem que é necessário conviver com as dúvidas em nome de uma estranha e absoluta fé. O futuro já está determinado pelo conhecimento anterior e deve ser assim entendido como realidade indiscutível. Essa heurística associada com a fé não permite nenhum novo conhecimento. Tudo será como antes, nenhuma mudança visível. A repetição de tanta coisa será a prova absoluta dessa nova epistemologia. O a priori e a autorreferência prejudicam a epistemologia.
Ideias fixas e repetitivas não podem indicar conhecimento. As mudanças existem e devem ser consideradas. O próprio novo não permanece para sempre absoluto e indiferente a tudo. Atitudes de evidente birra não podem existir com plenitude e permanecem eternas. O mundo e o próprio universo mudam sempre, independentemente de nossos pobres desejos. Existe para nós, sempre e automaticamente, uma procura por identificação de parâmetros, paradigmas, projetos e padrões que servem para o nosso conhecimento da realidade e, filogeneticamente, para a sobrevivência da espécie humana.
Encontrar um padrão desejável e útil é muito importante e qualquer história nova tende a ser compreendida à luz de padrões já estabelecidos anteriormente. O velho sempre explica o novo. O sujeito sempre explica o objeto a partir de si próprio: autorreferência.
É claro que isso é apenas uma suposição, uma hipótese. Porém, julgamos ser nossa verdade, nossa maravilhosa descoberta. Fazemos com a identificação de padrões, nossa teoria para viver com menos riscos. Uma vez estabelecida certa teoria e seu compartilhamento com outros, criamos nossa visão de mundo. Não mudamos facilmente. Não trocamos por nada. Agora, já somos sábios ou, ao menos, os verdadeiros conhecedores de algo. O autoengano é evidente! Tudo que vem mais rapidamente e, em primeiro lugar no pensamento, já começa constituir-se em nossa nova teoria. Assim vamos ancorando e alicerçando nosso conhecimento tão repetitivo das experiências. Assim construímos nossas verdades e as compartilhamos.
Nunca se devem procurar padrões alicerçados na imaginação, nas hipóteses, sempre produzidas pelo desejo humano. Conforme queremos demonstrar (CQD) da geometria descritiva pode ser mal utilizado. A sabedoria muitas vezes associa-se também às dúvidas. A filosofia e o conhecimento costumam ser influenciados pela paranoia. Temos de ter muito cuidado com as verdades e a paranoia. Produzem visão de mundo apenas para aliviar a ansiedade e criar a falsa impressão de maior segurança.
No contexto da modernidade, a verdadeira segurança é cada vez mais difícil e muitas vezes falsificada por interpretações que não correspondem a nada bem elaborado. O caos tem ganho da ordem no mundo e no universo. A lógica também, e o mesmo vale para qualquer racionalidade possível. Temos de conviver e administrar bem as constantes dúvidas que povoam nossos contextos. Nosso conformo intelectual é mítico. Buscamos sempre a zona de conforto. É claro que isso nada significa. Não significa que houve acerto ou confirmação de nosso padrão. Apenas estamos menos ansiosos e mais tranquilos, pois já encontramos certa significação. Isso faz parte do nosso pensamento e, é claro, não corresponde à realidade própria de cada situação.
Depois da “escolha” de um certo padrão, é muito difícil abandonar a teoria que organizou essa escolha. Reluta-se em produzir qualquer mudança significativa. Abraça-se a teoria e o padrão escolhido. É importante considerar que houve um grupo dos eleitos para determinada teoria na qual existe muita confiança e muitas explicações. Evidentemente, nem tão científicas.
Fazemos apostas cognitivas e elas criam certo otimismo. Servem para abaixar nossa angústia face ao desconhecido, face a tantas dúvidas que temos. Agora, existe conhecimento e uma epistemologia certa. Descobrimos a “verdade” e os fatos vão sendo revelados e cada vez mais reveladores também. Entre o sujeito e o objeto em cada problema, o sujeito tem de levar em conta suas projeções autorreferentes.
INTERROGAÇÃO
Nunca se sabe o que cada vocábulo representa.
Nem as interjeições.
Nunca se sabe, sobre o sujeito e o outro,
sodalício estranho.
Na realidade, as coisas existem
sem representação.
Mutismo, para uns enigmático.
Héctico espanto. Ninguém vai saber?
E quanta procura!
"Lo imposible hecho posible",
"música que se faz com ideias"
Uma procura sem fim. Eterna viagem ao nada.
Tudo e tanto na realidade de todas coisas.
(Poesia de minha autoria).
.png)


