35. Alguns discursos
04/03/2019
Uma roupa branca, avental bem feito, terno e gravata, jaleco ou uma túnica discreta, a pessoa do sujeito do suposto saber, em um lugar mais elevado: com o carisma próprio de cada cultura. O reconhecimento nominal das pessoas, um pouco de sedução e frases altissonantes, palavras bem colocadas em um discurso pretensamente correto. A verdade ou o próprio Deus emitindo conceitos de vida ou morte. Dizeres solenes, fortes, impactantes enunciam um discurso neutro?
Discursos científicos, religiosos, doutrinários ou jurídicos quase nunca podem ser neutros. Todos exercem violência simbólica não coercitiva produzida à margem da força dos canhões ou das armas atômicas. E, claro, à margem dos músculos.
Esse incrível animal simbólico, o homem, não só pela linguagem verbal, mas em toda a cultura, nos ritos, nas relações sociais e no âmago de qualquer instituição, tende a ser subserviente aos ditames, aos discursos estruturados que compõem o sujeito do suposto saber. Assim, o carisma de cada cultura origina leis, muitas vezes sutis, que exercem poder e desejo nos indivíduos.
O analista e seu silêncio, o analista e suas poucas palavras, escondido próximo, no divã, também se encontra bem distante da neutralidade sonhada nesses encontros. Assim caminham os discursos...
A seguir, algumas breves contribuições de Foucault. A psicanálise revelou que os discursos manifestam ou ocultam o desejo e parece claro que os sistemas de dominação e poder tendem à manutenção desse desejo. Interdição, separação e rejeição demonstram o discurso da razão em oposição ao da loucura. O louco, apesar de ser o porta-voz de alguma verdade e, para alguns, considerado sábio, não pode ser visto como cidadão. Os loucos não são culpados, não são testemunhas da Justiça e não podem exercer poderes religiosos. A partir do século XIX, só podia validar-se o discurso da verdade.
Existem três grandes sistemas de exclusão que atingem o discurso: a palavra proibida, a segregação da loucura e a vontade de verdade. É óbvio que essa verdade quase nunca é materializada no âmbito das relações sociológicas. O discurso verdadeiro só é possível obedecendo às regras de uma “polícia” discursiva que devemos reativar em cada um de nossos discursos. A essência da disciplina como uma reatualização permanente das regras é o princípio de controle da produção discursiva. Não é difícil observar a violência simbólica em cada indivíduo.
Salienta M. Foucault, no livro A ORDEM DO DISCURSO: aula inaugural no Collège de France, pronunciada em 2 de dezembro de 1970 (23ª edição - São Paulo: Edições Loyola, 2013), nas páginas 34 e 35: “Creio que existe um terceiro grupo de procedimentos que permitem o controle dos discursos. Desta vez, não se trata de dominar os poderes que eles têm, nem de conjurar os acasos de sua aparição; trata-se de determinar as condições de seu funcionamento, de impor aos indivíduos que os pronunciam certo número de regras e assim de não permitir que todo mundo tenha acesso a eles. Rarefação, dessa vez, dos sujeitos que falam; ninguém entrará na ordem do discurso se não satisfizer a certas exigências ou se não for, de início, qualificado para fazê-lo. Mais precisamente: nem todas as regiões do discurso são igualmente abertas e penetráveis; algumas são altamente proibidas (diferenciadas e diferenciantes), enquanto outras parecem quase abertas a todos os ventos e postas, sem restrição prévia, à disposição de cada sujeito que fala”.
Tanto o sujeito que fala e seu próprio enunciado como quem fala o que é falado não escapam das estruturas de poder. A enunciação pode produzir ortodoxia ou heresia em cada texto doutrinado. O status social, a raça, a nacionalidade influenciam o sujeito da fala e seu enunciado. Cada doutrina liga as pessoas a certos tipos de enunciação e impede todos os outros tipos e, desse modo, os indivíduos são diferenciados. A educação articulada a mecanismos políticos e econômicos aproxima e separa os homens em todas as suas vicissitudes pragmáticas ou filosóficas.
Como o ser humano é muito diferente dos outros seres vivos em decorrência da linguagem, portanto simbolismo, vive imerso nas representações. As coisas perderam-se e sempre são representadas pelas palavras, ou seja, pelos significantes. Chega de realidade objetiva e idealizada como única correta.
O saber psicanalítico enunciou a hierarquia do significante sobre o significado. Este nunca é obtido em plenitude e sim por intermédio das significações peculiares ao jogo de significantes no qual se cria o universo do sujeito da significação e seu enunciado, como o sujeito da enunciação. Tudo se passa entre os significantes que redescobrem o sujeito no contexto psicanalítico. As palavras revelam e ocultam o sujeito e ele assim é constituído. Cada discurso anula-se em sua realidade e é colocado na ordem do significante, nunca do significado das coisas (realidade externa).
Para Lacan e evidentemente toda uma psicanálise, os conceitos linguísticos possuem novas formas de entendimento. Os fatos concretos articulados a certa realidade, às vezes até material, interessa a muitos historiadores e nada aos psicanalistas em suas descobertas sobre os significantes em jogo. O sujeito da enunciação origina-se junto com a descoberta de determinado significado, por intermédio do jogo dos significantes. Aí pode encontrar-se o desejo e, é claro, também as estruturas do poder simbólico.
Quanto à filosofia do acontecimento, esta deveria avançar na direção paradoxal, à primeira vista, de um materialismo do incorporal (sempre transformado em simbólico e, portanto, virtual). Não existe uma teoria que permita pensar as relações do acaso e do pensamento. O acaso, o descontínuo e a materialidade complicam a vida dos filósofos e particularmente dos historiadores.
As posturas midiáticas negligenciam suas fontes de notícias relacionadas com as altissonantes estruturas de poder. Os acontecimentos verdadeiros ou reais não gravitam no âmbito da materialidade sociopolítica e econômica. Objetivam, de modo consciente ou não, manter os contrapontos que seguem o "status quo" vigente, ou garantir uma nova postura “revolucionária”, evidentemente falsa e maculada por outros ditames transformadores. Assim a interdição da linguagem e a antidemocrática exclusão banalizam uma história diferente para os acontecimentos envolvidos. A história é sempre escrita pelos vencedores. Os fatos são interpretados.
Nós, seres humanos em geral, queremos saber. As fontes históricas e midiáticas complicam, em nome da liberdade, a chamada por Foucault “vontade de saber”. Esta sempre sugere um saber defensivo e paranoico para interpretar as coisas. Salvador Dali nunca pôde criar como uma correta epistemologia ao duvidar de tudo, com ou sem razão.
A paranoia lúcida como método epistemológico não foi tão longe dos pensantes humanos articulados com o conhecimento.
Discursos científicos (médicos, biológicos, físico-químicos), discursos religiosos (doutrinas, discursos papais, encíclicas), discursos jurídicos (penais, civis, interpretativos), discursos literários (estéticos, poéticos, narrativos) e discursos psiquiátricos (psicanalíticos, sexuais, “neutros”): nenhum deles fala da essência
das verdades e da retidão epistemológica. Em grande parte, dizem o que queríamos dizer, uma vez que estão profundamente marcados nas estruturas de poder, fundamentos da afirmação e dos fatos reais mediados pela linguagem no jogo constante da significação, agora já significantes discursivos. Associações diagnósticas não têm nada a ver com a realidade.
A própria história das ciências, em muitos aspectos, é influenciada pelo poder articulado ao “establishment”, mas, é claro, que se consegue, apesar da enorme complexidade, chegar a um ponto onde o simbólico discursivo quase se aproxima da realidade determinada do fato. Foucault menciona Jean Hyppolite ao enunciar suas próprias questões a respeito da psicanálise como a estrutura lógica do desejo: “As matemáticas e a formalização do discurso, a teoria da informação e suas aplicações na análise do vivente, enfim, todos os domínios a partir dos quais se pode colocar a questão de uma lógica de uma existência que não cessam de atar e desatar seus laços”. As questões cruzadas presentes e também as enunciadas pela falta apresentam um discurso transformador e sempre simbólico.
Em outro texto, escreverei sobre um pouco da história da constituição do sujeito e utilizarei as palavras de Foucault para entendermos melhor o sujeito tanto da enunciação como o enunciado, pontual e válido, mais passageiro e rápido.
Acredito que será possível entender o psiquismo de modo mais técnico-científico e menos jurídico ou político. A psicanálise, ao buscar neutralidade sempre parcial, também busca conhecimento científico do psiquismo inacabado. E esperamos que, ao longo do tempo, irá estruturando-se. O psiquismo será revisto pelo autoconhecimento e, dessa forma, poderá ser melhor compreendido.
Pretendo escrever sobre a origem do homem psicanalítico em um lugar mágico, poderoso, estranho e determinante do saber metapsicológico.
LAVRAS
Palavra forte: vida ou morte.
Deus lavra os caminhos.
Lavra os desatinos.
Dor, sofrimento, vazio.
Corpo e também alma,
assinalam descaminhos.
Alívios difíceis.
Ausência de paz.
Brinca-se impassível com a sorte.
Estranha-se certo Norte.
Prosseguir difícil.
Estradas estranhas sem vício.
Alguém brinca impassível,
determina ou joga os dados.
Nunca se observam cuidados.
E nós, complexos humanos,
apodrecemos docemente.
Brincamos de modo impassível,
entre nuvens e astros.
Poesia de minha autoria
.png)


