15. Significantes que produzem prazer ou dor
10/09/2018
Alguns significantes que produzem prazer em algumas áreas do psiquismo podem provocar angustia ou dor em outras. Desse modo, surgem as defesas e o recalque primitivo, como veremos posteriormente. Existe, portanto, um contexto que permanece escondido no psiquismo, pois pode gerar angustia. Então, surgiu Freud com sua criação mais notável: a "ciência" metapsicológica e seu estatuto inconsciente ou sistema inconsciente. O inconsciente volta a aparecer, por exemplo, nos sonhos e no delírio, como já foi narrado.
Certamente, foi de Lacan o mérito de traduzir o inconsciente em figuras de linguagem como metáfora e metonímia, como significante e significado, como sujeito da enunciação e sujeito do significado. Foi ele quem enfatizou o uso da linguagem para verificar e compreender o psiquismo próprio de cada indivíduo.
Como se sabe, Freud escreveu e explicou o deslocamento e a condensação relidos linguisticamente por Lacan. Foi ele quem enunciou o psicanalista como o sujeito do suposto saber.
A linguagem musical também organiza o mundo interno e o externo. Cada palavra é um som e, portanto, é musicalidade. Muito se discutiu sobre o papel da linguagem musical como mais um instrumento adaptativo. Sabemos que, em muitos pássaros, o canto, às vezes bem bonito, pode representar defesa de território (agressividade) ou busca por fêmeas (acasalamento e sexualidade). Nos primatas superiores, existe, como em muitos outros animais, uma linguagem primitiva e não simbolizada, que permite certa comunicação.
Nos humanos, a linguagem tende a colocar ordem nas amplas cadeias associativas e, assim, permitir o conhecimento, como na música, na qual existe interesse por controlar o caos interior e criar a hipótese de uma ordem na realidade que praticamente não existe. Trata-se, portanto, de uma sofisticada ordem no fluxo contínuo do mundo interno e, apesar de tantas limitações, na realidade objetiva. É claro que se trata de uma complexa evolução adaptativa. Defesa do homem contra o suceder psicótico, contra a angústia do desconhecido.
Quando ouvimos música, instintivamente intuímos os compassos e as notas e organizamos uma melodia em nosso mundo interno. Depois de algumas repetições, nas primeiras notas já adivinhamos outras sequências. Daí a ilusão e magia de que tudo está ordenado e nada escapa do conhecimento. Uma realidade interna harmoniosa e bastante pacífica.
Algumas pessoas que sofreram traumatismo no cérebro frontal produziram obsessões musicais típicas, provavelmente compensatórias e organizadoras do seu caos no interior. Como o leitor pode concluir, ocorreram evidentes sinais e projetos adaptativos em face de uma desordem cerebral traumática. É oportuno salientar que processos infecciosos e tumorais também podem causar obsessões musicistas e outras para minimizar certos transtornos cerebrais.
O nada silencioso da estranha associação delirante de ideias do pensamento impensável e das variabilidades de infinitas cadeias de linguagem e sensações, de significantes que aparecem e desaparecem, muitas vezes mesclados à angústia, é colocado em ordem, falsa ou verdadeira, mas em ordem, por intermédio da linguagem criadora de opinião pronta e corrente, ao menos logicamente. Às vezes, a ordem, como vimos antes, é estabelecida pela linguagem musical. Desse modo, fabricam-se substitutos da linguagem objetiva ou interna e se criam regras que possibilitam organizar o caos interior.
Compassos, melodias e tempo musical também organizam e colocam dentro de outra linguagem cadeias associativas lógicas, racionais e coerentes. O caos debilita-se e alguma ordem adaptativa vai crescendo no interior do indivíduo atormentado por algum transtorno originado do suceder físico, portanto orgânico, ou psíquico, por vezes, cerebral.
É conhecido o fato de alguns pacientes perderem a noção de realidade. Ficam desconexos, com a memória fragmentada, confusos e com péssimo poder de comunicação. Porém, se ouvirem um pouco de música ficam coerentes, lógicos e até mesmo racionais. Parece óbvio que o papel básico da música foi promover uma ordem em um caos angustiante vivido no já mencionado mundo interno. Nesses casos, a memória muitas vezes também melhorava e só depois de algum tempo havia certa desordenação na realidade objetiva ou na comunicação com o outro, próprio dessa realidade.
Não há dúvida de que para se produzir algum significado e, principalmente, criatividade, a associação de ideias e dos afetos deve estar em bom caminho. Somente dessa forma o inconsciente pode expressar-se com mais coerência e liberdade, qualidades nem sempre vistas em fenômenos adaptativos, embora melhorem bastante o nosso mundo interno.
É importante enforcamos que tanto a música instrumental como a com letras organizam nossos pensamentos e permitem tanto a exacerbação da angustia como sua minimização. O conteúdo, entretanto, continua sendo desejável e possível na melhora do mundo interno e na realidade objetiva.
Como muitos analistas puderam observar, a linguagem musical parece facilitar em algumas pessoas a expressão do inconsciente de maneira evidente e evidenciadora. Muitas vezes, desnuda a vida íntima e possibilita o caminho complexo pelo qual transita a vida emocional do indivíduo em análise e daquele que aprende muito com a autorreflexão.
Na próxima semana, falarei sobre natureza ou cultura no ser humano – desejos e narcisismo.
PICADEIRO
O palhaço faz rir,
faz chorar.
Brinca passo a passo
nos enredos tragicômicos.
Exalta dor e sorriso.
Brinca e brinca de Deus.
Presença ou ausência dos seus.
Seu adeus continua sempre,
indiferente à plateia.
Dança nas emoções, no mistério.
A sério mistura tudo.
Mistura vida com morte.
Alegria à tristeza.
Pobre com nobreza.
Brinca e brinca de Deus.
Engrandece os cotidianos
há muitos anos.
Vive nas cores do humano.
A face colorida oculta outro humano,
desconhecido.
Relativiza todas as regras possíveis.
Ironiza o óbvio,
sem nenhum ódio.
A civilização não gosta dele
ou faz de conta:
brincando sempre como palhaço.
Com energia
sem cansaço.
Sucessão estúpida de guerras.
Selva de descomunais feras.
Esfera visível do ridículo.
O palhaço brinca e brinca de Deus.
No adeus ao picadeiro,
terreiro de suas preces,
palco de seu choro,
terreiro de seu riso.
Sorriso e caras.
Sorriso e caretas.
Passo e no compasso
do trágico,
do alegre palhaço,
um triste palhaço.
Só ironia.
Carlos Roberto Aricó
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