123. O sonho da injeção: Irma
16/03/2021
Leitor amigo, o grande inventor da psicanálise interpretou um sonho que ele próprio teve. Como em todos os textos deixados por ele e pelos pacientes ou analisados, as possibilidades de interpretação são múltiplas. Naquele tempo, no despertar de uma nova ciência, Freud teve coragem de fazer suas associações, quase provando a existência dos sintomas inconscientes.
Não farei modificações dos textos e suas interpretações magníficas, pois não se trata de analisar a figura do importante mestre. Tenho insistido muito, em outras narrativas elaboradas por mim, no âmbito da pulsão, e Freud, só algum tempo depois do início de seus trabalhos, pôde escrever sua teoria pulsional.
Narro aqui o principal da história e, é claro, desejo que o leitor leia o original: as interpretações dos sonhos, nas quais o autor revela os aspectos mais evidentes da substituição ou deslocamento de pessoas e as condensações possíveis.
A pulsão expressa o instinto escrito no âmbito psicológico. Tem duas vertentes, como já narrei: o lado do amor, Eros em sua representação, e o lado do ódio, Tânatos, também representado. Agressividade e libido criando comportaremos internos, dentro de cada indivíduo e atuação externa, visível em evidentes formas de relacionamento.
Observe, leitor, as mesmas questões que são presentes do ser humano e, inclusive, nos humaniza até nosso fim, nossa morte. Com o passar do tempo, vamos acrescentando um pouco de tantas experiências vivenciadas. Agora, pretendo contar um pouco sobre o sonho e sua interpretação. Em “Obras psicológicas completas de Freud” (Editora IMAGO), “A interpretação de sonhos 1ª parte – 1900”.
SONHO DE 23-24 DE JULHO DE 1895:
“Um grande salão - numerosos convidados, que estávamos a receber. - Entre eles, estava Irma. Imediatamente, levei-a para um lado, como se para responder a sua carta e repreendê-la por não haver aceitado ainda minha ‘solução’. Disse-lhe que o seguinte: ‘Se você ainda sente dores, é realmente por culpa sua.’ Respondeu: ‘Se o Senhor pudesse imaginar que dores tenho agora na garganta, no estômago e no abdome… - estão me sufocando’… fiquei alarmado e olhei para ela. Estava pálida e inchada. Pensei comigo mesmo que, afinal das contas, deixara de localizar algum mal orgânico. Levei-a até a janela e examinei-lhe a garganta, tendo dado mostras de resistência, como as mulheres com dentaduras postiças. Pensei comigo mesmo que realmente não havia necessidade de ela fazer aquilo. - Em seguida, abriu a boca como devia e no lado direito descobri uma grande placa branca; em outro lugar, localizei extensas crostas cinza-esbranquiçadas sobre algumas notáveis estruturas crespas que, evidentemente, estavam modeladas nos cornetos do nariz. - Imediatamente chamei o Dr. M e ele repetiu o exame e confirmou-o… O Dr. M. tinha uma aparência muito diferente da comum; estava muito pálido, claudicava e tinha o queixo escanhoado… Meu amigo Otto estava também agora de pé ao lado dela, e meu amigo Leopold auscultava-a através do corpete e dizia: ‘Ela tem uma área surda bem embaixo, à esquerda.’ Também indicou que uma força da pele no ombro esquerdo estava infiltrada. (Notei isso, da mesma forma que ele, apesar do vestido.)… M. disse: ‘Não há dúvida que é uma infecção, mas não tem importância; sobreviverá a disenteria e a toxina será eliminada.’… Estávamos diretamente cônscios, também, da origem da infecção. Não muito antes, quando ela não estava se sentindo bem, meu amigo Otto aplicara-lhe uma injeção de um preparado de propila, propilos… ácido propiônico… trimetilamina (e eu via diante de mim a fórmula desse preparado em grossos caracteres) … Injeções dessa natureza não devem ser feitas tão impensadamente… E provavelmente a seringa não devia estar limpa” p. 115.
Os fatos do dia anterior, ou passado próximo, são a ponte de partida para sua interpretação. Assim, também devemos levar em conta os dias anteriores e os fatos recentes, para analisar buscando os significados envolvidos.
A orientação geral é do presente ao passado remoto. O hoje, o atual, explica o início do desenvolvimento psicossexual e agressivo do ser humano em seus primórdios. Freud quer saber do estado de Irma e tem notícias por meio de Dr. Otto. Depois, continua a escrever sobra suas questões básicas no descobrimento da psicanálise.
Havia grande número de convidados para o aniversário da mulher, antecipado no sonho no qual ele encontrou-se em férias. Aparece sua culpa por Irma, que, por isso, sente dores. Ele não era o responsável, pois Irma não fez o que foi indicado.
Irma estava pálida e ele desconfiou que a estava substituindo por outra pessoa. Veja o deslocamento a antes, ao passado próximo. Em inúmeros contextos, tenho ansiedade relacionada a não considerar a organicidade encoberta ou não considerada. Tudo é psicológico? Na grande maioria das vezes, só posso cuidar disso; também não tenho culpa. É o papel de cada psicanalista. Ouvir, ouvir e interpretar.
Ficar junto à janela e abrir a boca fizeram Freud lembrar-se de uma governanta, mas especialmente pouco depois de uma amiga de Irma aparecer. A mulher era muito reservada. Porém, mais inteligente do que Irma, ela poderia fazê-lo concordar mais com o inconsciente. Culpa, falta de inteligência, governanta... Era tudo relacionado com pulsão de morte. Desejava que aparecesse aquela amiga, relacionada com impulso erótico.
A garganta com uma placa branca e os cornetos com crostas fazem Freud associar à doença grave que aconteceu dois anos antes, de uma filha e sua indicação de tratamento com uso de cocaína. Lembra-se que teve mucosa nasal necrosada pelo uso da criticada droga. Veja, leitor, que Irma representa a governanta, sua amiga, a filha de Freud e várias outras associações com o uso indevido e perigoso da cocaína.
A convocação para novo exame do Dr. M. fez Freud lembrar-se do paciente que fez uso exclusivo e sulfonal e de sua filha mais velha, Mathilde. Para Freud, o Dr. M. muitas vezes foi capaz de ter mais consciência médica do que nosso mestre. Novamente, pulsões são substituídas por outras na essência de Eros e Tânatos.
Dr. M., com barba bem-feita e sua associação com o irmão mais velho de Freud. Ambos com aparência doentia. Ambos discam clamor do inventor do inconsciente.
Dr. Otto e Dr. Leopold apareciam no sonho substituindo Irma e sua amiga preferida por Freud. Esta ele valorizava mais, assim como Dr. Leopold.
Área surda no pulmão, tuberculose, metástase e pneumonia diziam respeito às preocupações médicas e associações entre Freud, Leopold, sua filha e uma antiga discussão.
Disenteria é semelhante à difteria. Palavras parecidas que Freud usa por não ter tanta importância, e ambas fogem do contexto. O manifesto oculto, latente e de histeria a uma doença orgânica, Freud não se sentia culpado pelos equívocos. Ele lembra de um paciente seu que, em viagem, foi diagnosticado como portador de disenteria. Desordem intestinal histérica foi o diagnóstico do mestre, sempre pronto para se defender de possíveis críticos. Consolo e tudo ficará bem, torna tudo livre de culpa. Tanto Irma como Dr. M. não aceitavam as explicações inconscientes da histeria.
O amigo de Freud, Dr. Otto, foi chamado para aplicar uma injeção em Irma, que não estava sentindo-se bem. Freud recorda de um amigo que, tomando cocaína, no conselho de Freud, não fez via oral e, assim, acabou falecendo.
O licor que ele não gostou aparece no sonho devido a um conflito em seu mundo interno, e daí foram utilizadas as correlações que se articularam à química orgânica.
No sonho, aparece de modo estático a trimetilamina, considerada por Dr. Fliess como parte importante do metabolismo sexual. A sexualidade humana, para Freud, era a causa das alterações que ocorriam nas neuroses histéricas. Assim, ele sentia-se muito articulado com o saber do inconsciente nas histerias observadas.
Injeções apressadas, equivalentes de pensamentos apressados, surgem também nesse histórico e importante sonho. As seringas limpas obedeciam à ideia geral de cuidados que ele tinha em mente, para evitar expressões negativas. Substitui três mulheres entre si: a escopos do mestre, Irma e Mathilde, sua filha falecida.
Freud vingou-se de Dr. Otto e de Irma: jovem viúva e seu amar ambivalente marcado pelo ódio, pela vingança. “Assim, seu conteúdo foi realização de um desejo e seu motivo foi um desejo”. Ele sempre se preocupou com as pessoas das quais ele tratava. Sua consciência profissional e humana era ética.
A interpretação do sonho de Irma termina da seguinte forma:
“Se adotarmos o método de interpretação de sonhos indicado por mim aqui, verificaremos que os sonhos realmente têm um significado e estão longe de construir a expressão de uma atividade fragmentária do cérebro, como as autoridades têm alegado. Quando o trabalho da interpretação fica concluído, percebemos que um sonho é a realização de um desejo” p. 130.
Na próxima semana falarei sobre o futuro de uma ilusão.
EM TEMPO
Entre mim e eu.
Do instante ao eterno.
Passado ou futuro ausentes.
Caleidoscópio sem geometria.
Palavras sem vibração.
Silêncio barulhento.
Vazio e pleno: mesmices.
Sempre ou nunca: mesmices.
Palavras e mais palavras:
língua desconhecida
vibração, nada de significar.
Entre mim e eu:
o infinito e a explosão.
Sombras dançando na escuridão.
Silabas cegas de sentido.
Silêncio, plasma, etéreo.
Harmonia tensa.
Desarmonia imensa.
Carlos Roberto Aricó
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