top of page

121. Freud e a política 2

02/03/2021

A ciência na qual Freud relevou-se é muito mais importante do que as percepções humanas da sociedade, sempre em conflito. A harmonia com a verdade é difícil e a razão não costuma dar conta de tudo. Vamos considerar certo o que parece certo. Vamos considerar provável aquilo que acreditarmos ser possível e falso tudo aquilo que podemos pensar racionalmente como falso. A religiosidade baseia-se na esperança e fé em um mundo melhor. É claro que vão corresponder necessariamente a isso. Cuidado, leitor. Freud, não há dúvida, fez muita política no movimento psicanalítico, mas ele, como sabemos, não possuía ideologias próprias de algum partido político. Sempre permaneceu neutro em qualquer sistema ideológico.

Seus textos nunca objetivaram um controle social. Apenas, e de modo brilhante, utilizou-se da civilização e seu conteúdo, mais de protecionismo e cuidado com cada indivíduo, para enfim explicar o psiquismo, no homem com ou sem transtornos.

Assinalou Stefan Zweig, em 1933: “A expressão de uma vontade indômita, que mordente. Em retratos anteriores o olhar era simplesmente contemplativo, mas agora é perfurante e sombrio; a testa muito franzida, como que por amargor e suspeita. Os lábios finos, tensos, como que dizendo um ‘não' enfático ou então, friamente, ‘isso é falso’. Pela vez primeira notamos que se manifesta na face um ímpeto poderoso, a severidade de uma natureza formidável, e murmuramos para nós mesmos: ‘não, este não é um velho grisalho e bom, suavizado pelos anos, mas um escrutinador implacável, examinador rigoroso, que não tentará enganar, nem se permitirá ser enganado” - Stefan Zweig: Mental Healers (Londres: Cassel, 1993), p. 272 em Freud: Pensamento político e social, Paul Roazen, p. 150.

Enfaticamente narrando: não tentará enganar, nem se permitirá ser enganado. No narcisismo humano, observa-se nítida identificação. As características dos líderes poderosos podem originar, ao mesmo tempo, certa submissão à autoridade totalitária e/ou ser essa autoridade. Narcisismo e egoísmo fazem parte de cada ser humano, de cada indivíduo.

A luta de classes e a metapsicologia nunca puderam caminhar juntas. A psicanálise e o marxismo foram opostos por Freud. Ele não conhecida e menos ainda aceitava o comunismo da então União Soviética.

Para ele, Lênin e seus partidários criaram uma nova religião, que fazia os indivíduos sofredores apegarem-se a algo para um mundo novo. A ilusão de viver no Planeta associava-se a uma espécie de prejuízo evidentemente falso e pleno de contradições.

Freud estava disposto com muita força e desconhecimento a eliminar o sistema marxista do mundo. Ele não valorizava os menos favorecidos e sempre teve alguma simpatia pelo regime da época.

Ernest Jones assinala:
“Qualquer pessoa que tenha vivido o sofrimento da miséria na juventude e suportado a indiferença e a arrogância dos ricos deveria estar isenta da suspeita e não ter compreensão e boa vontade para com as tentativas de eliminação das diferenças econômicas entre os homens e de tudo que elas provocam” (Jones: Sigmund Freud, vol. III, p. 334 em Freud: Pensamento político e social, Paul Roazen, p. 157).

Nunca podemos esquecer que, para Freud, a razão tão valorizada no Iluminismo e a antipatia contra a religiosidade foram os determinantes básicos para seus trabalhos. Já foi narrado anteriormente que os bloqueios das pulsões de vida e de morte ajudaram a fazer a civilização, embora tenham criado muitos desejos insatisfeitos e inúmeros conflitos, até vitais.

Sempre foram importantes o sacrifício dos instintos e as pulsões eróticas e agressivas para o benefício de toda comunidade. Os sintomas e os sonhos delatavam os desvios e proibições para criar os desejos insatisfeitos e o sofrimento do indivíduo, em nome da construção da sociedade.

As necessidades humanas nunca poderiam implicar uma boa adaptação às leis, às normas e às regras de toda e qualquer civilização. As diferenças culturais não podiam favorecer a liberdade das pulsões básicas. Nenhuma ideologia oficial e realidade política deram conta de nossos desejos demasiadamente humanos: contrários e oponentes à civilização.

O homem nunca pôde estabelecer com liberdade seus próprios valores morais. Estes foram fabricados pela sociedade e a civilização, no adaptar-se à realidade de si próprio, dos pais e da família, da escola e da religião. Não é necessário ser santo, mas apenas manter uma identidade negando a psicopatia do mundo interior. Isso é desconhecido até pelo indivíduo e só reaparece, como já observamos, nos sintomas, nos sonhos e nas manifestações artísticas.

Devemos, para construir a civilização, domesticar as tempestades que se originam a partir do desejo: eróticas e agressivas. As limitações e as proibições pretendem e determinam um autodomínio falso, que, às vezes, acaba modificado pelo poder psicanalítico e pelo verdadeiro autoconhecimento do mundo, fora e dentro de cada um.


Na próxima semana abordarei o mal-estar na cultura.

RESPOSTA.

Saúde ou ataúde?
Gente que não se ilude.
Compasso de Deus,
espaço de tanto adeus.
Caminha-se contra o destino.
Chamado triste do desatino.
Esperança de vitória,
na luta sempre inglória
de vencer a morte.
Fraqueza ou loucura, cura ou morte?
Poucos marcharão triunfantes.
Depois igual ao antes.


Carlos Roberto Aricó

© 2023 por Nome do Site. Orgulhosamente criado com Wix.com

  • Facebook
  • YouTube
  • Instagram
fim%20do%20vi%CC%81deo%20(3)_edited.jpg
bottom of page