120. Freud e a política 1
23/02/2021
O grande mestre e descobridor da metapsicologia e do inconsciente, ao que tudo indica, teve pouca participação política. Desde sua juventude tinha uma atuação contra os movimentos antissemitas que, à época, povoavam Viena, onde depois se disseminou com muito poder o nazismo.
Na grande luta entre uma minoria de ricos e a grande maioria de pobres, a verdadeira política social, Freud responde a Max Eastman: “Em política não sou nada”.
Foi brilhante pesquisador da alma humana, como temos narrado, e muitos já o conheciam bastante. Porém, cuidou pouco das relações entre as necessidades humanas com a vida social e até provavelmente gostava mais das elites. Sabe-se que muitos filósofos tiveram mais participação na política e na sociedade. Freud não foi inspirado para pensar sobre as classes sociais.
Freud teve o direito de dedicar-se com liberdade a todas as características que, em seu trabalho, necessitavam de maiores explorações. Como se sabe, até por meio dos discípulos do pensador, foi observado o caráter sistemático e profundo sobre o psiquismo dos indivíduos.
Sofreu pressão da realidade política externa e das fortes resistências ao saber psicanalítico que estava descobrindo. Não havia tempo e nem vontade, ao que parece, de um envolvimento maior pela luta nos conflitos dos homens de classes sociais tão diferentes. Nada poderia desviá-lo da psicanálise.
As relações textuais entre Freud e Marx nunca puderam ser estabelecidas de modo distante de conflitos. Freud estava preocupado com o egoísmo e o narcisismo do homem individual; Marx, com o homem coletivo. Entretanto, não se deve esquecer a introjeção dos valores coletivos que auxiliou Freud no desenvolvimento do Superego. Depois de suas descobertas, creio eu bastante científicas, pretendia escrever sobre eles e, até certo ponto, depreciava os estudos políticos. Sobre o “Mal-estar na cultura” escrevia a Lou Andreas-Salomé:
“Trata de civilização, sentimento de culpa, felicidade, e assuntos assim exaltados; quer me parecer, e acho que estou certo, que é supérfluo em relação aos trabalhos anteriores, que sempre se originavam de alguma necessidade anterior. Mas, que mais posso fazer? Não se pode passar o dia inteiro só fumando e jogando baralho; já não posso mais andar muito, e a maior parte daquilo que leio não me interessa mais. Escrevendo, o tempo passa mais agradavelmente. Enquanto me dedicava a este trabalho descobri as verdades mais banais” (Freud, Letters, pp. 389, 390 em Freud: Pensamento político e social, Paul Roazen, p. 71).
A René La Forgue, referindo-se ao “Futuro de uma ilusão”, Freud escreveu:
“Este é o meu pior livro! (…) Não é um livro de Freud (…) É o livro de um homem velho: (…) Aliás, Freud agora está morto e, creia-me, o verdadeiro Freud foi realmente um grande homem. Sinto pena, especialmente de você, por não havê-lo conhecido melhor. (…) Perdi o impacto” (Citado em Maryse Choysy: Sigmund Freud/ Nova York: Citadel Press, 1963, p. 84 em Freud: Pensamento político e social, Paul Roazen, p. 72).
Nesses dois livros, sobre os quais fiz narrativas anteriormente, há fatos e evidências de que Freud procurava de maneira metafísica e, portanto, filosófica sua expressão política e social. Com relação aos seus trabalhos de sociologia, admitia que não tinha opinião formada e tudo era muito controvertido e talvez até inadequado para se misturar a esses temas tão importantes, ao menos nas discussões acadêmicas.
Desde a carta a Fliess, em 1896, Freud já gostava de filosofia, mas via na medicina um jeito de progredir mais entre os outros. Já anunciava que, quando fosse velho, poderia retornar com mais prazer aos aspectos metafísicos, pois teria horror pela suprema incerteza de todos os problemas locais e políticos, afastando-se, assim, desse âmbito.
Na próxima semana, darei sequência a esta abordagem sobre “Freud e a política”.
DEPOIS
Depois da pesca.
Depois da festa.
Depois da seresta.
Só resta a dúvida.
Eterna dívida com Deus ausente:
entre ocaso e o presente.
Um Deus perdido, no meu horizonte.
Enorme Deus, esperança
em toda gente.
Uma dúvida, uma dívida,
como sempre.
Depois da pesca.
Depois da festa.
Depois da seresta.
Ser esta?
Carlos Roberto Aricó
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