118. Novos tempos 1
09/02/2021
Na atualidade, nos lugares de quase todo o Planeta, existem claras ameaças para toda a humanidade. Há o perigo da deteriorização dos sistemas democráticos e até líderes mundiais que não acreditam na sociedade baseada em sistemas políticos poderosos. Estes devem ser construídos, pois aquilo que está aí não corresponde a nenhum modelo civilizatório. Os humanos, desejando ou não, permanecem influenciando as leis do mundo livre, sempre presos ao poder das elites, ou seja, nunca verdadeiramente independente. Desordens, revoltas, concentração de renda, governos despóticos, neoliberalismo, poder dos bancos, ditaduras, influência determinante do capital nas eleições “livres”... Assim, tristemente, caminhamos. Os governantes sabem. Nós quase nada sabemos.
Recapitulando: não existe sociedade, só pessoas juntas no mercado, tendo de sobreviver de qualquer jeito, pois praticamente nada depende delas e não existe caminho ideológico alternativo e possível sem a valorização mágica de uma utópica liberdade. Vale lembrar, porém, que há muitos governantes, guardadas as devidas proporções, como Hitler, Pinochet e Trump. Devemos ser ao menos democratas radicais que ganham o poder, mas não eliminam as minorias que devem ser preservadas. Dentre os jovens, a política tristemente é situada entre os celulares, que valem muito mais do que os alimentos.
Mises e Hayek, em nome de uma economia forte e sólida, tiraram o poder dos sindicatos e eliminaram a social-democracia na Áustria em 1920. Autoproclamados sistemas libertários, destruíram estruturas democráticas e, junto delas, a democracia. Esta, radicalmente determinada, impede o autoritarismo que destrói a humanidade.
Embora utilizem linguagem bélica (“a pandemia e outras epidemias”, “os profissionais da saúde em guerra contra o inimigo como os vírus” etc.), isso já foi refletido em outras narrativas e se utiliza parte da linguagem nazista. Leitor, cuidado: guerra e inimigo não podem ser idealizados. A linha de frente somos todos nós, nessa estranha civilização na qual temos a ameaça de forças armadas nas ruas, toque de recolher e fronteiras. Parece-me claro que uma verdadeira democracia enfrentará melhor as pandemias e outras ameaças ao nosso bem-estar.
Existem mais dois perigos que podem nos ameaçar e já o fazem: o aquecimento global, pela queima descontrolada de combustíveis fósseis, que tem como consequência o derretimento das calotas polares e o aumento do nível do mar; e a ameaça das bombas nucleares, que devem ser eliminadas antes que gerem catástrofes radiativas que acabem com a Terra.
Os cientistas acreditam, com muita razão, que temos de reduzir calculadamente a quantidade de gás carbônico na atmosfera para declinar o aumento da temperatura. Também é necessário eliminar tudo que causa violência. Hiroshima e Nagasaki viveram a catástrofe nucelar em 1945, quando os aliados, que já haviam vencido a guerra, acharam necessário colocar muito medo no lugar da esperança. A extinção da espécie humana pode, infelizmente, acontecer a qualquer momento. Não é possível uma guerra atômica localizada. O poder nuclear, tão dependente das democracias, também está sujeito a ditaduras. A catástrofe é observada ao longo de décadas.
Três dias depois dos tempos tenebroso e destruidores com armas nucleares, o “democrático” presidente dos Estados Unidos na época disse que o ataque das bombas felizmente havia coincidido com os interesses norte-americanos perante Deus e não aos inimigos japoneses. Ou as nações do mundo dito civilizado aliam-se ou a extinção da espécie humana é iminente.
Precisamos de mais democracia e união para evitar o uso terrível de armas nucleares. Aliás, talvez em um futuro utópico, poderosos eliminem qualquer arma que mate outro indivíduo, para a manutenção da vida.
Algum tempo depois da utilização das armas nucleares, um jornalista do jornal The New York Times afirmou que a tal radioatividade não existia e era propaganda japonesa. Laurence, o redator de temas científicos, confirmou as informações “claras” de que não havia radiação nas cidades arrasadas! O cinismo do homem não tem limites. Vamos apagar sempre o que historicamente não vale a pena. Alguém no mundo pode criar as mentiras sempre que isso for útil e necessário.
Na próxima semana, o texto será em torno desse mesmo assunto.
OCASO
Matar toda poesia.
Cansado tradutor de silêncios.
Transcrever ocasos: difícil.
Memória: apenas nuvem.
Matar palavras.
Escrevê-las ou ficar sem elas.
sonha-se e elas voltam.
Já não são inventadas.
Rimas, metáforas, já não inventar.
Reaparecem nos sonhos, na solidão.
Poesias estão podres no chão.
No ar, fazem voo próprio.
Pretensa a autonomia.
Criam asas e voam.
No rio da existência se afogam.
Em fogo: apenas cinzas sem nome.
Nomes queimados,
nomes submersos,
nunca alcançam o real.
Escapar do mundo, de tudo.
Papéis não podem voltar ao branco.
Sujos assim continuam.
Ideias refletem tudo
nesses barulhentos papéis inúteis.
Despir o mundo,
despedir das palavras é fracasso.
Estranha impossibilidade.
Tudo e sempre igual, injusto.
Ainda assim, escrevo, traduzo meus silêncios.
Carlos Roberto Aricó
.png)


