103. O suicídio e as tentativas 3
15/09/2020
Repetirei algumas palavras para que o conhecimento do suicídio ou tentativa fique com mais clareza. A maioria dos seres humanos já teve ideação suicida, mas é óbvio que, felizmente, a realização dos atos destrutivos não é comum. Ideias em cadeias associativas vinculadas com autoagressão, pessimismo exagerado e sentimentos de culpa criam no psiquismo o desejo de morte, no ardiloso e difícil confronto com a vida. Algumas pessoas sentem-se desvalorizadas, acreditam que nada possam modificar e acham que nada terá alguma solução. Estes indivíduos, se tiverem associações com os transtornos psíquicos, estarão mais sujeitos ao suicídio. É importante verificar que existe ideação suicida sem nenhum transtorno depressivo envolvido. O ser humano pode não acreditar em saída alguma para um novo recomeçar. Devemos acreditar e manter a esperança de que sempre haverá alguma saída possível.
O suicídio não é um ato sem objeto e aleatório. Obedece, como vários comportamentos, a uma casualidade múltipla. Várias condições unem-se ao diagnóstico para o dramático ato, no qual o sofrimento é grande e parece jamais terminar. A falta de esperança invade e destrói esses indivíduos. Como abordamos antes, eles pedem socorro e, claro, chamam muito nossa atenção.
Nas pessoas que têm algum transtorno psíquico, a expectativa de vida diminui cerca de 10 anos, independentemente do ato suicida. Em todo o mundo, perto de oito milhões de indivíduos a cada ano morrem por influência dos transtornos mentais. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o número de suicidas chega perto de um milhão de mortes, a maioria do sexo masculino, aproximadamente 75%. O vínculo entre transtorno psíquico e ato suicida é bastante elevado. Porém, cada transtorno é condição necessária, mas não suficiente para o comportamento suicida.
Os neurotransmissores alterados têm relevância no ato e na ideação suicida, bastante articulados com a depressão, motivo de saúde pública na atualidade. Cada um de nós sabe como é difícil tratar os deprimidos e parte deles é resistente aos antidepressivos. Alguns já não acreditam em mais nada e se sentem inúteis, sem objetivos de vida: simplesmente vão vivendo desinteressados e, claro, mais sujeitos ao alcoolismo e tantos outros vícios em drogas, inclusive as prescritas por nós e autorizadas profissionalmente. É grande o número de indivíduos deprimidos que realizam o suicídio, é oportuno lembrar.
A psicofarmacologia associada com as psicoterapias de emergência podem auxiliar tanto na ideação suicida como no comportamento. Ou seja, é preciso rapidez para modificar a depressão que resiste, inutiliza e mata muitos indivíduos, conforme temos considerado.
A cetamina, um antagonista não competitivo do receptor glutamatérgico NMDA com ação ultrarrápida pode ser útil, e o rapastinel, nos estudos preliminares, podem ser úteis. Obviamente, diálogos psicoterápicos desenvolvidos, objetivando a esperança necessária possível, também podem ajudar. Nesse contexto, é muito importante desenvolver a esperança no desejo de vida melhor.
Na próxima semana o texto será sobre o uso do canabinol no tratamento de transtornos mentais.
VULCÃO
Até onde se lava, se leve?
Se nada leveza eleva-se
leve tão leve no ar?
Lava do vulcão,
cão indomável.
Magma em explosão.
Fúria incandescente
na terra.
Fúria, fogo, fumaça.
Pedras em convulsão.
Lavar onde
mais nada
se lava.
Lava e lavra
do vulcão:
do cotidiano.
Carlos Roberto Aricó
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